Friday, February 16, 2007

Fernando Pessoa desvenda o amor

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos.
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio






Sunday, February 11, 2007

Das Tempestades

Tempestade em copo d'água. In: www.culturabrasil.org


"Em todas as coisas deve fazer-se o que de nós próprios depende. Quanto ao resto, mantenhamo-nos firmes e tranqüilos.
Sou obrigado a embarcar. Que devo fazer? Escolher cuidadosamente o barco, o piloto, os marinheiros, a estação, o dia e a hora, ou seja, o que de mim depende. Já em alto mar, sobrevém terrível tempestade; não é assunto meu. O barco afunda. Que fazer?
Tudo quanto de mim depende: não grito, nem me atormento. Sei que tudo o que nasceu deve morrer; é a lei geral. É preciso que eu morra. Não sou a eternidade, sou um homem, uma parte do todo, assim como a hora é uma parte do dia. A hora chega e passa; eu também chego e passo. O modo de passar é indiferente, quer seja pela febre, quer pela água; tudo é o mesmo.
Não pretendas que as coisas sejam como as desejas. Deseja-as como são."

EPICTETO - MÁXIMAS
Tradução de Alberto Denis

Wednesday, February 07, 2007

Com olhos de Adélia

Beijinhos, flores de Adélia



Quando li "Solar", da Adélia Prado:

"Minha mãe cozinhava exatamente:
arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas
Mas cantava."

Aconteceu em mim um arroubo de sentimento. Foi daquele tipo de sentimento que toma, transborda e esparrama. Reconheci que se tratava de amor puro e de respeito à simplicidade. Amor e respeito são uma coisa só, um não existe sem o outro. Eu me percebi amando delicada e intensamente a simplicidade que os olhos de Adélia conseguem revelar. Neste meu estado, ensinado por ela, se deu algo assim:

O sorrir sorrateiro vem dar conta do meu estado,
E então sorrisos, do lado que vocês vêm tem feito frio?
Frio não faz, vazio também não.
No dia que chegar o futuro que mora em mim,
vou vestir só sorrisos.
Sorriso não é coisa que combine com cor de vestido,
mas eu estarei em azul.
Dos sorrisos não farei conta sovina.
Distribuo para quem quer que venha ou vá,
Tanto faz.
Me basta sorrir.
Neste dia farei minha casa bem no limiar do instante,
E viro um número primo, como aprendi com o Nietzsche, para viver sem deixar restos.
Daí, desintoxicada de mim mesma, direi:
-Muito bem D. Marlene, crescendo que só vendo!
Alegria que é coisa só.
Não me faltaria nem um tacho onde picaria temperos e cheiros para abafar o mamão verdinho,
um pouco de feijão de corda, do que cresceu rente à cerca,
e a serralha bem novinha, daquela que tem perto do caminho do rio.
Daí a vida vai ser assim, do tamanho que é de ser:
Simples, solenemente simples.
Marlene

Monday, February 05, 2007

O Grito

Edvard Munch, O Grito

Tanto debate já rolou sobre O Grito que também fiquei intrigada com este quadro de Edvard Munch. E eu, que não sou poeta e tampouco historiadora da arte, só posso dizer o que sinto. Fiquei imaginando o porquê do grito, conjecturando sobre o que aquela boca aberta gritava.
Para mim, se trata de um grito de dor descomunal. Uma reação para afrontar o distanciamento e silêncio do mundo diante de um corpo comum. A dor me parece tão grande e assustadora que obrigou o gritador amparar a cabeça entre as mãos a fim de projetar o mais longe possível o som que sua garganta conseguisse produzir.
Pois me digam, não dá mesmo uma dor imensa imaginar-se insignificante diante dos dias que passam silenciosos, cegos, enfileirados e alheios a nós? Para mim, esta é a dor expressa no grito de Munch.
Mas, é certo que toda obra depende do olho que a vê. O olho é parte do enquadramento da obra. Por isso agora, no novo século, estamos discutindo a chamada “crise do ocularcentrismo”. Isto quer dizer que a realidade não é somente aquilo que o olho vê. E, se temos olhos, cada um enxerga a seu modo. Diante disso, o mais acertado talvez fosse recorrer às intenções do próprio autor. Munch fez quatro versões do Grito. Expressou com estas palavras sua intenção original: "Passeava pela estrada com dois amigos, olhando o por-do-sol quando o céu de repente se tornou vermelho como sangue. Parei, recostei-me na cerca, extremamente cansado. Sobre o fiorde preto azulado e a cidade estendiam-se sangue e lìnguas de fogo. Meus amigos foram andando e eu fiquei, tremendo de medo, podia sentir um grito infinito atravessando a paisagem." A primeira versão do Grito chamou-se Desespero. Os historiadores dizem muitas coisas: que ele se inspirou na visão de uma múmia ou que o Grito representa a cena final de um amor. Certo ou não, a questão é que Munch expôs o Grito pela primeira vez em 1893, como uma das peças que compunha a exposição que ele entitulou Amor.
Enfim o que é o Grito? Talvez nem Munch soubesse dizer, por isso para mim de pouco vale arriscar o que é ou deixa de ser. A mim me importa o fato que esta obra me incita perguntar: se realidade não é aquilo que o olho vê, o que é a realidade?
Hoje tantos se ocupam em construir amores, pontes, castelos e paixões virtuais para dar recheio aos dias, vivem de uma realidade que o olho não vê. Outros preferem afago, olho no olho, colo na hora do choro, uma xícara de chocolate aquecida por um sorriso. Querem construir uma realidade que o olho vê. Acontece que para isto é preciso parceria.
Daí se deparam com a escassez dos que estão dispostos a sair de si mesmo para conceder sorrisos e felicidades aos outros.
E tempo para ouvir o outro? Ah! este também falta. Certo está o Rubem Alves quando afirmou que, atualmente, as pessoas se matriculam nos cursos de oratória para aprender falar bem, saber verbalizar fluentemente, conversar com desenvoltura. Porém, por incrível que pareça não se ouve falar no mais necessários dos cursos: o de escutatória, um curso onde as pessoas aprenderiam a usar os ouvidos e a paciência para escutar atentamente o que o outro diz.
Por isso há tantos relacionamentos de superfície. Por isso a existência de relações que produzem solidão. É um estar junto montado num jogo cênico onde a regra é encenar o “estar bem e feliz”, mesmo que não seja bem isto que está acontecendo lá no fundo do coração. O sentimento real é, então, varrido para fora do mundo. É, está mesmo tão difícil conhecer gente de verdade que quando conheço alguma fico logo deslumbrada. Estou falando deste tipo de gente capaz de se expor com franqueza sem descambar para a lógica trivial do rir e fazer rir para, depois, no fim do ato recolher-se à coxia ou ao silêncio de casa completamente tomado por uma sensação de falta.
E falta mesmo! Falta quem não tema o amor com seus cuidados e exigências. Falta quem não tema a grandiosidade dos seus próprios sentimentos diante do outro. Falta quem não se limite a dar pouco de si por temer julgamentos alheios.
Então eu pergunto: o que aconteceu com o sentimento? Virou mercadoria? Quanto custa para ter amigos? Custa a capacidade de ser divertido, fazer rir e falar pelos cotovelos contanto que seja bem rapidinho? Afinal não se diz que chato é aquele que a gente pergunta como ele vai e ele explica? Quanto custa para ter um amor? Posição social, um carro bacana, umas roupas transadas, um monte de jóias, um português capenga e um vazio de falas? É assim que se consegue relações humanas de valor atualmente?
Eu cismo que não. E sei que tem muita gente linda perdida neste redemoinho atual. Por isso gosto de olhar nos olhos de cada gente e tentar enxergar a verdade guardada por cada uma delas. Estendo a minha mão para quem quiser ser meu amigo ou meu amor. Mas deve ser de verdade porque não tem nada a ver comigo ser o modelo do Grito de Munch.

Sunday, February 04, 2007

O mundo silencioso

Vincent Van Gogh, Japonaiserie: Bridge in the Rain (1887)

"Num esforço para que as pessoas olhem
mais olhos nos olhos umas das outras,
e também para satisfazer os mudos,
o governo decidiu determinar
para cada pessoa exatamente
cento e sessenta e sete palavras por dia.


Quando toca o telefone, ponho-o ao ouvido
sem dizer alô. No restaurante
aponto para a canja de galinha.

Estou me adaptando bem ao novo jeito.
Tenho estampas para todas as ocasiões.
Cada manhã invento uma nova frase
que imprimo numa camiseta,
como Os Seres Humanos Estão Vindo
ou Karaokê Para Mudos.

Tarde da noite, ligo para o meu amor distante,
orgulhoso digo somente gastei conqüenta e nove hoje.
Guardei o resto para você.

Quando ela não responde
sei que usou todas as suas palavras
então sussurro lentamente eu amo você
trinta e duas vezes e um terço.
Depois disso, ficamos junto à linha
ouvindo um o respirar do outro"

***
Jeffrey McDaniel, traduzido por Mauro Faccioni Filho