Beijinhos, flores de Adélia
Quando li "Solar", da Adélia Prado:
"Minha mãe cozinhava exatamente:
arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas
Mas cantava."
Aconteceu em mim um arroubo de sentimento. Foi daquele tipo de sentimento que toma, transborda e esparrama. Reconheci que se tratava de amor puro e de respeito à simplicidade. Amor e respeito são uma coisa só, um não existe sem o outro. Eu me percebi amando delicada e intensamente a simplicidade que os olhos de Adélia conseguem revelar. Neste meu estado, ensinado por ela, se deu algo assim:
O sorrir sorrateiro vem dar conta do meu estado,
E então sorrisos, do lado que vocês vêm tem feito frio?
Frio não faz, vazio também não.
No dia que chegar o futuro que mora em mim,
vou vestir só sorrisos.
Sorriso não é coisa que combine com cor de vestido,
mas eu estarei em azul.
Dos sorrisos não farei conta sovina.
Distribuo para quem quer que venha ou vá,
Tanto faz.
Me basta sorrir.
Neste dia farei minha casa bem no limiar do instante,
E viro um número primo, como aprendi com o Nietzsche, para viver sem deixar restos.
Daí, desintoxicada de mim mesma, direi:
-Muito bem D. Marlene, crescendo que só vendo!
Alegria que é coisa só.
Não me faltaria nem um tacho onde picaria temperos e cheiros para abafar o mamão verdinho,
um pouco de feijão de corda, do que cresceu rente à cerca,
e a serralha bem novinha, daquela que tem perto do caminho do rio.
Daí a vida vai ser assim, do tamanho que é de ser:
Simples, solenemente simples.
Marlene