Elas
Eram elas mãe e filha no corte da
cana. Eu a criança órfã. Mãe morreu, pai foi embora. Quando acordava Tata já
tinha ido para o escritório. Elas partiam ainda escuro. O silêncio ficava
para companhia. A porta da casa dos fundos fechada. Quando abria a noitinha as duas chegavam
tingidas do preto da fuligem da queima da cana, laranjas da mesma cor enfiadas
no “bornal”. Iam tomar banho e ficavam brancas de novo. Eu assistia ao espremer
apertado da laranja, derrubando caldo sobre o arroz e feijão puros. O cenário
imutável da casa dos fundos: cômodo único que nada tinha de interessante
para se ver com as mãos. Eu assistia ao engolir delas colherando o prato na
fome do que ignoravam existir. Não reclamavam. Não se revoltavam. Todos os dias
eram iguais em sofrimento e meu estômago virava junto das colheradas repetidas.
Dizia a mais velha: “olha lá! vê se arruma um trapo pra amarrar neste taio que
amanhã sai na carreira e esquece. Cuida não que esse dedo arruína!”. E eu odiava com força saber que trapo era o
remédio delas. O consentimento dado ao sofrimento me rasgava. No domingo
deixaram a roupa branca no quarador, depois as estenderam alvas no varal, branco de fazer ar nos olhos. Pois bem, eu vou fazer justo aquilo que elas falam e
quero ver não brigar, não gritar, não reclamar, não bater: eu vou malinar!
Sujei as mãos no barro e esfreguei decidida em cada roupa branca. Aguardei pelo
queixume. Ele não veio. Só ganhei o silêncio que era o de sempre. Vingaram-se
de mim me presenteando com a força que era delas. O silêncio fechou meu dia.
Marlene. 27/08/2013


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