
Dos Desejos
Quando em criança, contaram-me que as estrelas morrem. As pobrezinhas perdem o brilho e caem. Quem tem a sorte de vê-las em queda de vida pode realizar um desejo, mas só se for sigiloso. É assim que se faz: vê-se, em noite escura, um brilho cintilante riscando o céu, daí aperta-se no peito a vontade grande e formula-se o desejo apenas pelos olhos. Depois é só aguardar que a estrela morta renasça na forma do desejo angustioso satisfeito.
Sempre acreditei nas estrelas, vivas ou em morte. Mas, não lembro que tenham satisfeito os meus desejos. Eles ficaram apenas como desejos confidenciados às estrelas.
Continuo a acreditar em estrelas, mesmo sabendo que não atendem desejos. É bom confiar. Mesmo se em estrelas minúsculas que chamam atenção pela presença constante.
Os desejos são sempre maiores que as estrelas. Eles chegam sorrateiros e ficam espiando a gente de longe. Daí a gente tem um frio que gela a barriga e tonteia a cabeça. Os desejos são fortes e a gente fica fraca, pasmando diante do avolumar-se deles. É bem a cara deles querer ganhar o mundo e não arcar com segredo algum.
Fazem um torvelinho. E dá uma vertigem de corpo que queima e deixa a língua com vontade de passear mundo afora.
Quem é fraco não pode ter desejos. Tem que apascentar os dias num torpor morno e lutar para esquecer, porque os desejos exigem força. Só ganha desejo satisfeito quem tem fôlego de muitas vidas para correr atrás deles porque desejos têm pernas do tamanho do mundo, sempre correm ligeiros.
Quando tinha 20 anos, eu pensava que desejos eram concessões. Achava que o mundo tinha coisas e coisas para dar, só me restando ter a paciência e placidez de um monge para aguardar pelo que havia de ser meu. Quieta, calma, conformada nos meus desejos eu corria os dias em cegueira absurda.
Mas, desejo tanto quer que ensina a gente a viver. Exigentes, pedem satisfação ou cismam em nos atear loucuras que o superego desestimula. Mesmo assim, eu dizia para mim mesma que tudo tem seu tempo. Aprendi a ser lúcida e calma. Calma e lúcida, lúcida e calma. E, assim, ia alternando dias contendo desejos.
Hoje com mãos mais destemidas e olhar menos pensativo ganhei força. Quando desejo eu fecho os olhos e viajo junto deles para onde me querem levar. Afio as garras no tapete da sala, dou de roer um osso qualquer para afinar as presas e, vou atrás deles. Desejos não se dão com calma. Seus jeitos são famintos.
Só os cansados de vida querem aprender a largar mão dos desejos. Eu não! Eu quero vontade posta num prato desenhado em azul para nele me deitar e adocicar inteira em vontade plena.
Depois vem uma lentidão na alma, um sorriso maroto no rosto e um brilho de estrelas nos olhos. A gente sorri à grande e pensa: como é bom ser feliz!
Sempre acreditei nas estrelas, vivas ou em morte. Mas, não lembro que tenham satisfeito os meus desejos. Eles ficaram apenas como desejos confidenciados às estrelas.
Continuo a acreditar em estrelas, mesmo sabendo que não atendem desejos. É bom confiar. Mesmo se em estrelas minúsculas que chamam atenção pela presença constante.
Os desejos são sempre maiores que as estrelas. Eles chegam sorrateiros e ficam espiando a gente de longe. Daí a gente tem um frio que gela a barriga e tonteia a cabeça. Os desejos são fortes e a gente fica fraca, pasmando diante do avolumar-se deles. É bem a cara deles querer ganhar o mundo e não arcar com segredo algum.
Fazem um torvelinho. E dá uma vertigem de corpo que queima e deixa a língua com vontade de passear mundo afora.
Quem é fraco não pode ter desejos. Tem que apascentar os dias num torpor morno e lutar para esquecer, porque os desejos exigem força. Só ganha desejo satisfeito quem tem fôlego de muitas vidas para correr atrás deles porque desejos têm pernas do tamanho do mundo, sempre correm ligeiros.
Quando tinha 20 anos, eu pensava que desejos eram concessões. Achava que o mundo tinha coisas e coisas para dar, só me restando ter a paciência e placidez de um monge para aguardar pelo que havia de ser meu. Quieta, calma, conformada nos meus desejos eu corria os dias em cegueira absurda.
Mas, desejo tanto quer que ensina a gente a viver. Exigentes, pedem satisfação ou cismam em nos atear loucuras que o superego desestimula. Mesmo assim, eu dizia para mim mesma que tudo tem seu tempo. Aprendi a ser lúcida e calma. Calma e lúcida, lúcida e calma. E, assim, ia alternando dias contendo desejos.
Hoje com mãos mais destemidas e olhar menos pensativo ganhei força. Quando desejo eu fecho os olhos e viajo junto deles para onde me querem levar. Afio as garras no tapete da sala, dou de roer um osso qualquer para afinar as presas e, vou atrás deles. Desejos não se dão com calma. Seus jeitos são famintos.
Só os cansados de vida querem aprender a largar mão dos desejos. Eu não! Eu quero vontade posta num prato desenhado em azul para nele me deitar e adocicar inteira em vontade plena.
Depois vem uma lentidão na alma, um sorriso maroto no rosto e um brilho de estrelas nos olhos. A gente sorri à grande e pensa: como é bom ser feliz!
Marlene


