Tuesday, January 30, 2007

E a virtualidade?


Neste tempo de blogs, chats, orkut, msn e congêneres, me vi refletindo sobre a ênfase virtual de nossas atuais relações. Um livro, em especial, chamou minha atenção para o tema da virtualidade: “Life on the Screen: Identity in the Age of Internet” autora: Sherry Turkle (Weindenfeld & Nicolson edit), ano 1995.
Como num estrondo Turkle, ao tratar do impacto da internet em nosssas vidas, disse: “milhões de pessoas em novos espaços estão mudando o modo como nós pensamos a natureza de nossa sexualidade, a forma de nossas comunidades, nossas verdadeiras identidades”. Para mim, a coisa começava mal. Julguei a afirmação tão exagerada como quando diziam que telégrafo acarretaria mudança no nosso modo de escrever ou que a tv criaria uma nova forma de vida. Recomendei-me, portanto, cautela diante das posições de Turkle.
Depois do andar da leitura, convenci-me da importância da distinção que ela propõe entre realidade virtual e virtualidade real. Considero que é este o endereço do perigo, vizinho com a desgraça de um lado e solidão do outro. É disso que quero falar.
Estamos vivendo a crise da “res publica”, crise das coisas públicas e dos vínculos sociais. Cismo que sopram daí os ventos do nosso atual desconforto espiritual, para falar como o Fernando Pessoa. Em resumo, há uma crise na formação de vínculos. O vínculo, como eu o entendo, é uma forma de relação entre pessoas que se importam umas com as outras mesmo que não sejam parentes próximos ou distantes. Esta crise parece clara para todos. Não bastando isto, assistimos à crise do eu porque ao mesmo tempo em que cada um não suporta ser apontado como exatamente igual a fulano ou beltrano, ou seja, deseja ser único e distinto a qualquer um, este mesmo sujeito deseja ser membro de uma comunidade, ele deseja o seu símile. Daí a comunidade dos que usam a mesma marca de tênis ou jeans ou mesmo tom de cabelo, ouve a mesma música, freqüenta o mesmo bar etc. O sujeito quer ser incomum sendo comum ou quer ser comum sendo incomum. O humano e suas contradições, diante disto só cabe citar Terêncio: “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”.
Vive-se uma fuga do mundo público em razão do medo da violência e do desagrado diante do comportamento egoísta das pessoas, entre outras coisas. Esta fuga leva ao isolamento na esfera privada. Pessoas trancam-se em casa, dando muito pouco de si para os outros e, por conseguinte, também recebem pouco.
Evidentemente sendo animais gregários, os humanos precisam das outras pessoas, não suportando viver em absoluto isolamento. Daí a internet vir como a luva para a mão esgotada. A Internet permite o acesso ao outro a partir do auto-isolamento. Daí o sucesso dos blogs, orkut e congêneres.
E, já que as pessoas recusam a realidade dos desencantos do mundo público, faz-se maravilhoso teclar com pessoas sempre inteligentes, bonitas, bem resolvidas, sem nenhuma imperfeição. Em resumo, teclar com pessoas que não tem nada destas coisas que são inerentes ao humano, tansformando a virtualidade em algo plenamente satisfatório. As pessoas que se acomodam nestas relações se satisfazem num tipo de realidade que é absolutamente virtual: vivem a virtualidade real. Na virtualidade real as construções não visam necessariamente ao real, elas limitam-se ao virtual, ao idílico, à fantasia.
Em contrapartida, muitas pessoas estão se encontrando através da Internet, fazendo negócios, se conhecendo, trocando informações ou mesmo se casando. Este conjunto de pessoas tem a Internet como um espaço para realidade virtual. Neste caso, o virtual encontra o potencial de realizar-se como real.
Daí porque o endereço do perigo é a virtualidade real. Num mundo em crise de res publica tudo aquilo que incita a recusa ao mundo público serve também para afrouxar liames sociais. Talvez fosse bom fazer como nossos avós e ir para praça. Em sendo outros tempos, melhor a realidade virtual ou então a vida dos bares, cafés, ou seja lá quantos forem os lugares onde haja vida real passando por perto.


Saturday, January 27, 2007

Entre camélias e damas da noite

Eu que sou uma inebriada adoradora de flores sempre me vi formigando desejos quando ouvia o descrever do primor das camélias. Não as conhecia, pode ser uma coisa dessas? O dano parecia irretorquível a uma amante das flores, a marca de uma ausência incalculável, um abismo a ser saltado somente quando meus olhos pousassem nas tais camélias. Camélia parecia-me coisa assim feita rouxinol. De que me adiantava ter ouvido tantos pássaros se nunca houvera deixado meus ouvidos serem entorpecidos pelo canto do rouxinol? Num dia desses de humor azedo, como nesses quando a gente dá um topão bem forte com o dedo mindinho na quilha pontiaguda de um móvel que entrou no caminho da gente, fui obrigada a vociferar a minha ira incontida: que se dane esse tal de rouxinol, deve ser um pássaro muito aguado e langüescente pois que só dá de cantar entre os sinistros e também desconhecidos rododendros. Passarinho mais fresco esse tal de rouxinol! Os melhores cantores tem a voz de um rouxinol e, que grande coisa para ser dita! As camélias, amiguinhas dos rouxinois e das cotovias, nunca foram comparadas às damas da noite que cresciam na minha rua. Elas que alargavam cheiro inequivocadamente aos passantes, pondo-lhes o gosto de estar fora de casa, notivagando em langores de corpo e vida densos.Pois o que me parecia é que até mesmo a natureza havia sido retalhada entre os ricos e pobres. Aos pobres cabia as dálias, os capitães e os beijinhos que se alastram vagabundinhos por qualquer chão que se lhes regue. As camélias não! Já pensou camélia fazendo par com pardal e andorinha? Que insano poderia realizar tal união?E assim, fui tocando os meus dias amando as damas da noite, mas cismando com as camélias. Vinha-me lembrar :“nos fios tensos da pauta de arame e metal e metal, as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol”. Já pensou se Cassiano Ricardo tivesse dito: nos fios tensos de arame e metal os rouxinois alardeam pelo frescor das camélias em flor? É! tudo faz crer, tem um mundo para as camélias e outro mundo feinho para os beijinhos que namoram os balaústres. Mas eu aprendi algo com as camélias. Hoje conheci as camélias, estavam amarradinhas num buquê minúsculo sendo vendidas por uma mulher pobrezinha estancada numa esquina elegante de Buenos Aires. Precisei parar e perguntar: que flores são essas? São camélias, respondeu-me a vendedora. Percebi que a preço caro ela não só vendia camélias, vendia também meu sonho que julguei vulgar ao encontrá-lo. Percebi que é mais verdadeiro amar o que me acompanha de perto do que aquilo que se põe a longos tempos de mim. O amor reclama das ausências marcantes. E, naquela esquina eu rememorei o cheiro das minhas damas da noite, elas me inundaram de amor e me ensinaram a esquecer as cotovias e os rouxinois que nunca estão presentes. Amar é bom quando se tem o amor presente e como presente.

Impermanência


Estas são damas da noite que floresceram na sacada do meu apartamento em dezembro. Fotografadas pelo Verci, puderam ser eternizadas porque são flores de um dia, ou melhor, de uma noite apenas. Fernand Braudel, ao discutir os eventos de curta duração, usou a metáfora das flores de um dia para expressá-los: "eventos de curta duração, essas flores de uma dia tão rapidamente fanadas que não as temos duas vezes entre os dedos". As damas da noite são encantadoras ao expor a verdade da impermanência. Para existir por apenas uma noite, compõem o belo absoluto e antes que amanheça o dia se voltam para um suave e belo fenecer. Eu, que as admiro com zelo e calma, as compreendo como lição da impermanência. O termo tibetano para designar corpo é "lü", que significa "algo que você deixa para trás". Daí a impossibilidade de afirmar que nossas vidas futuras estão muito distantes, uma vez que poderíamos ser jogados em nossa próxima vida ainda hoje. As damas da noite parecem saber disto e sorriem floridas me contando que é da vida ser assim: executar o belo pelo tempo de sua duração e apascentar-se na transformação que a tudo sucede. Elas ensinam o viver plenamente os fenômenos de curta duração, viver intensamente o instante. Contam-me que a felicidade mora nas pequenas e nas grandes coisas, a felicidade mora em todo lugar. E isto me faz lembrar Shantideva que disse: "Embora todos desejem ser felizes, na sua ignorância combatem a própria felicidade como se fosse seu pior inimigo". Assim, aprendo sobre a impermanência com damas da noite que, na floreira do meu apartamento, dividem espaço com rododendros brancos, ou seja: azaléias brancas. O mundo fica mais bonito florido.

Friday, January 26, 2007

Hokusai

"Desde a idade de seis anos eu tinha a mania de desenhar a forma dos objetos. Por volta dos cinqüenta anos havia publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que produzi antes dos sessenta não deve ser levado em conta. Aos setenta e três compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os passários, os peixes e os insetos. Em conseqüência, aos oitenta terei feito ainda mais progressos. Aos noventa pentrarei no mistério das coisas; aos cem terei decididamente chegado a um grau de maravilhamento - e quando eu tiver cento e dez anos, para mim, seja um ponto ou uma linha, tudo será vivo"
Katsuhika Hokusai
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Hokusai (1760-1849) é por muitos considerado o maior dentre os pintores japoneses. Para mim ele é especial em sua concepção sobre tempo e aprimoramento existencial, pinturas ou xilogravuras. Sua obra mais conhecida é " The great wave of Kanagawa", mas não é a que destaco. Gosto das suas representações do Monte Fujji, um total de 36. Dentre elas, gosto muito desta porque me parece ideal para incitar um poema zen absolutamente perfeito e auspicioso:



"É bom quando o sol está brilhando.

Também é bom quando está nublado.

A forma do Monte Fuji não é afetada por isto."

Tesshû Yamaoka (1837-1888)

Sunday, January 21, 2007

Modigliani (1884-1920)

Que foi feito dos pedaços de tuas falas com os quais teci meus sonhos?
Como pode poeira roer memórias que eram meus tesouros de ti?
Será a vida um beijo na solidão?
Por que interrogação é pontuação sem nunca ter parar?

Philippe Halsman
Dali Skull,1951.