Entre camélias e damas da noite
Eu que sou uma inebriada adoradora de flores sempre me vi formigando desejos quando ouvia o descrever do primor das camélias. Não as conhecia, pode ser uma coisa dessas? O dano parecia irretorquível a uma amante das flores, a marca de uma ausência incalculável, um abismo a ser saltado somente quando meus olhos pousassem nas tais camélias. Camélia parecia-me coisa assim feita rouxinol. De que me adiantava ter ouvido tantos pássaros se nunca houvera deixado meus ouvidos serem entorpecidos pelo canto do rouxinol? Num dia desses de humor azedo, como nesses quando a gente dá um topão bem forte com o dedo mindinho na quilha pontiaguda de um móvel que entrou no caminho da gente, fui obrigada a vociferar a minha ira incontida: que se dane esse tal de rouxinol, deve ser um pássaro muito aguado e langüescente pois que só dá de cantar entre os sinistros e também desconhecidos rododendros. Passarinho mais fresco esse tal de rouxinol! Os melhores cantores tem a voz de um rouxinol e, que grande coisa para ser dita! As camélias, amiguinhas dos rouxinois e das cotovias, nunca foram comparadas às damas da noite que cresciam na minha rua. Elas que alargavam cheiro inequivocadamente aos passantes, pondo-lhes o gosto de estar fora de casa, notivagando em langores de corpo e vida densos.Pois o que me parecia é que até mesmo a natureza havia sido retalhada entre os ricos e pobres. Aos pobres cabia as dálias, os capitães e os beijinhos que se alastram vagabundinhos por qualquer chão que se lhes regue. As camélias não! Já pensou camélia fazendo par com pardal e andorinha? Que insano poderia realizar tal união?E assim, fui tocando os meus dias amando as damas da noite, mas cismando com as camélias. Vinha-me lembrar :“nos fios tensos da pauta de arame e metal e metal, as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol”. Já pensou se Cassiano Ricardo tivesse dito: nos fios tensos de arame e metal os rouxinois alardeam pelo frescor das camélias em flor? É! tudo faz crer, tem um mundo para as camélias e outro mundo feinho para os beijinhos que namoram os balaústres. Mas eu aprendi algo com as camélias. Hoje conheci as camélias, estavam amarradinhas num buquê minúsculo sendo vendidas por uma mulher pobrezinha estancada numa esquina elegante de Buenos Aires. Precisei parar e perguntar: que flores são essas? São camélias, respondeu-me a vendedora. Percebi que a preço caro ela não só vendia camélias, vendia também meu sonho que julguei vulgar ao encontrá-lo. Percebi que é mais verdadeiro amar o que me acompanha de perto do que aquilo que se põe a longos tempos de mim. O amor reclama das ausências marcantes. E, naquela esquina eu rememorei o cheiro das minhas damas da noite, elas me inundaram de amor e me ensinaram a esquecer as cotovias e os rouxinois que nunca estão presentes. Amar é bom quando se tem o amor presente e como presente.

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