O Grito
Tanto debate já rolou sobre O Grito que também fiquei intrigada com este quadro de Edvard Munch. E eu, que não sou poeta e tampouco historiadora da arte, só posso dizer o que sinto. Fiquei imaginando o porquê do grito, conjecturando sobre o que aquela boca aberta gritava.
Para mim, se trata de um grito de dor descomunal. Uma reação para afrontar o distanciamento e silêncio do mundo diante de um corpo comum. A dor me parece tão grande e assustadora que obrigou o gritador amparar a cabeça entre as mãos a fim de projetar o mais longe possível o som que sua garganta conseguisse produzir.
Pois me digam, não dá mesmo uma dor imensa imaginar-se insignificante diante dos dias que passam silenciosos, cegos, enfileirados e alheios a nós? Para mim, esta é a dor expressa no grito de Munch.
Mas, é certo que toda obra depende do olho que a vê. O olho é parte do enquadramento da obra. Por isso agora, no novo século, estamos discutindo a chamada “crise do ocularcentrismo”. Isto quer dizer que a realidade não é somente aquilo que o olho vê. E, se temos olhos, cada um enxerga a seu modo. Diante disso, o mais acertado talvez fosse recorrer às intenções do próprio autor. Munch fez quatro versões do Grito. Expressou com estas palavras sua intenção original: "Passeava pela estrada com dois amigos, olhando o por-do-sol quando o céu de repente se tornou vermelho como sangue. Parei, recostei-me na cerca, extremamente cansado. Sobre o fiorde preto azulado e a cidade estendiam-se sangue e lìnguas de fogo. Meus amigos foram andando e eu fiquei, tremendo de medo, podia sentir um grito infinito atravessando a paisagem." A primeira versão do Grito chamou-se Desespero. Os historiadores dizem muitas coisas: que ele se inspirou na visão de uma múmia ou que o Grito representa a cena final de um amor. Certo ou não, a questão é que Munch expôs o Grito pela primeira vez em 1893, como uma das peças que compunha a exposição que ele entitulou Amor.
Enfim o que é o Grito? Talvez nem Munch soubesse dizer, por isso para mim de pouco vale arriscar o que é ou deixa de ser. A mim me importa o fato que esta obra me incita perguntar: se realidade não é aquilo que o olho vê, o que é a realidade?
Hoje tantos se ocupam em construir amores, pontes, castelos e paixões virtuais para dar recheio aos dias, vivem de uma realidade que o olho não vê. Outros preferem afago, olho no olho, colo na hora do choro, uma xícara de chocolate aquecida por um sorriso. Querem construir uma realidade que o olho vê. Acontece que para isto é preciso parceria.
Daí se deparam com a escassez dos que estão dispostos a sair de si mesmo para conceder sorrisos e felicidades aos outros.
E tempo para ouvir o outro? Ah! este também falta. Certo está o Rubem Alves quando afirmou que, atualmente, as pessoas se matriculam nos cursos de oratória para aprender falar bem, saber verbalizar fluentemente, conversar com desenvoltura. Porém, por incrível que pareça não se ouve falar no mais necessários dos cursos: o de escutatória, um curso onde as pessoas aprenderiam a usar os ouvidos e a paciência para escutar atentamente o que o outro diz.
Por isso há tantos relacionamentos de superfície. Por isso a existência de relações que produzem solidão. É um estar junto montado num jogo cênico onde a regra é encenar o “estar bem e feliz”, mesmo que não seja bem isto que está acontecendo lá no fundo do coração. O sentimento real é, então, varrido para fora do mundo. É, está mesmo tão difícil conhecer gente de verdade que quando conheço alguma fico logo deslumbrada. Estou falando deste tipo de gente capaz de se expor com franqueza sem descambar para a lógica trivial do rir e fazer rir para, depois, no fim do ato recolher-se à coxia ou ao silêncio de casa completamente tomado por uma sensação de falta.
E falta mesmo! Falta quem não tema o amor com seus cuidados e exigências. Falta quem não tema a grandiosidade dos seus próprios sentimentos diante do outro. Falta quem não se limite a dar pouco de si por temer julgamentos alheios.
Então eu pergunto: o que aconteceu com o sentimento? Virou mercadoria? Quanto custa para ter amigos? Custa a capacidade de ser divertido, fazer rir e falar pelos cotovelos contanto que seja bem rapidinho? Afinal não se diz que chato é aquele que a gente pergunta como ele vai e ele explica? Quanto custa para ter um amor? Posição social, um carro bacana, umas roupas transadas, um monte de jóias, um português capenga e um vazio de falas? É assim que se consegue relações humanas de valor atualmente?
Eu cismo que não. E sei que tem muita gente linda perdida neste redemoinho atual. Por isso gosto de olhar nos olhos de cada gente e tentar enxergar a verdade guardada por cada uma delas. Estendo a minha mão para quem quiser ser meu amigo ou meu amor. Mas deve ser de verdade porque não tem nada a ver comigo ser o modelo do Grito de Munch.


5 Comments:
Mar,
de tudo que seu texto menos precisa é de comentadores. Mas, enfim, pensei em deixar esse comentário, para te chamar a atenção para duas coisas: 1) teu texto é bom! 2) Ele tem uma razão humanista tão profunda que o próprio Munch ficaria feliz se pudesse saber que um olhar contemporâneo sobre o que ele fez é capaz de ver o grito como uma obra de amor ao homem. Acho que é isso mesmo.
Bem, haverá aqueles que dirão que você foi muito crítica. Esses são os condescendentes!
Haverá ainda aqueles para quem seu texto soará pueril. Esses são os academicistas.
Não precisamos nem de um nem de outro. Seu texto precisa ser lido, aspirado, respirado e vivido. E é só! Alguém pode querer mais do que isso!
Não nos esqueçamos, porém, daqueles a quem falta dar um pouco mais de si justamente por temerem os julgamentos alheios! Esse são os nossos mais próximos! Cuidemos para que se esqueçam dos julgamentos alheios e se lancem às caravelas, aos mares, à vida, enfim!
Giovanni,
Ah, você! Sempre endereçado ao certo. Sempre refinado e apurado nas tuas percepções. Obrigada por me lembrar de navegar ao mesmo tempo que viver, mesmo porque ambos são precisos. Guarda contigo o meu carinho.
Querida amiga,
Eu fico extasiada com suas sinapses superiores (hehehehehe) Eu já havia pensado sobre o significado dessa obra de arte..... A sua tradução descreveu de forma magistral a expressão daquele rosto!!!
Vou imprimir e ler para meus amigos mais cultos ou ao menos interessados nessas coisas!
Mil beijos, saudades....
Nanne,
Só voc mesmo! Acabo de dar boas gargalhadas. Sinapse superior? Tem dia que meus neurônios ficam num jogo de empurra que só vendo. Mas, é bom compartilhar pensamentos com quem a gente se sente a vontade. Afinal disse a Adelia Prado: amigo é quando a gente pode ser a gente mesmo com esta pessoa. Obrigada pela tua amizade!
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