Saturday, September 07, 2013
Friday, September 06, 2013
Tuesday, August 27, 2013
Elas
Eram elas mãe e filha no corte da
cana. Eu a criança órfã. Mãe morreu, pai foi embora. Quando acordava Tata já
tinha ido para o escritório. Elas partiam ainda escuro. O silêncio ficava
para companhia. A porta da casa dos fundos fechada. Quando abria a noitinha as duas chegavam
tingidas do preto da fuligem da queima da cana, laranjas da mesma cor enfiadas
no “bornal”. Iam tomar banho e ficavam brancas de novo. Eu assistia ao espremer
apertado da laranja, derrubando caldo sobre o arroz e feijão puros. O cenário
imutável da casa dos fundos: cômodo único que nada tinha de interessante
para se ver com as mãos. Eu assistia ao engolir delas colherando o prato na
fome do que ignoravam existir. Não reclamavam. Não se revoltavam. Todos os dias
eram iguais em sofrimento e meu estômago virava junto das colheradas repetidas.
Dizia a mais velha: “olha lá! vê se arruma um trapo pra amarrar neste taio que
amanhã sai na carreira e esquece. Cuida não que esse dedo arruína!”. E eu odiava com força saber que trapo era o
remédio delas. O consentimento dado ao sofrimento me rasgava. No domingo
deixaram a roupa branca no quarador, depois as estenderam alvas no varal, branco de fazer ar nos olhos. Pois bem, eu vou fazer justo aquilo que elas falam e
quero ver não brigar, não gritar, não reclamar, não bater: eu vou malinar!
Sujei as mãos no barro e esfreguei decidida em cada roupa branca. Aguardei pelo
queixume. Ele não veio. Só ganhei o silêncio que era o de sempre. Vingaram-se
de mim me presenteando com a força que era delas. O silêncio fechou meu dia.
Marlene. 27/08/2013
Sunday, May 09, 2010

Partida
Silêncio!
Porque o sofrer faz alarde em mim.
Trincada estou.
Qual chuva em janela de trem, meu corpo desenha-me caminho de lágrimas.
Esquartejam-me pequenos rios nascentes dos meus olhos,
E de nada vale o carinho do vento.
Alma solta em verde campina, corre rápido.
Anseia para que me baste a harmonia ritmada do trem que sozinho vai por sobre os trilhos
Exigindo-me, solenemente, em qualquer lugar:
- Hora de saltar!
Silêncio!
Porque o sofrer faz alarde em mim.
Trincada estou.
Qual chuva em janela de trem, meu corpo desenha-me caminho de lágrimas.
Esquartejam-me pequenos rios nascentes dos meus olhos,
E de nada vale o carinho do vento.
Alma solta em verde campina, corre rápido.
Anseia para que me baste a harmonia ritmada do trem que sozinho vai por sobre os trilhos
Exigindo-me, solenemente, em qualquer lugar:
- Hora de saltar!
Marlene
Thursday, December 17, 2009
Saturday, October 17, 2009
Thursday, July 02, 2009

Dos Desejos
Quando em criança, contaram-me que as estrelas morrem. As pobrezinhas perdem o brilho e caem. Quem tem a sorte de vê-las em queda de vida pode realizar um desejo, mas só se for sigiloso. É assim que se faz: vê-se, em noite escura, um brilho cintilante riscando o céu, daí aperta-se no peito a vontade grande e formula-se o desejo apenas pelos olhos. Depois é só aguardar que a estrela morta renasça na forma do desejo angustioso satisfeito.
Sempre acreditei nas estrelas, vivas ou em morte. Mas, não lembro que tenham satisfeito os meus desejos. Eles ficaram apenas como desejos confidenciados às estrelas.
Continuo a acreditar em estrelas, mesmo sabendo que não atendem desejos. É bom confiar. Mesmo se em estrelas minúsculas que chamam atenção pela presença constante.
Os desejos são sempre maiores que as estrelas. Eles chegam sorrateiros e ficam espiando a gente de longe. Daí a gente tem um frio que gela a barriga e tonteia a cabeça. Os desejos são fortes e a gente fica fraca, pasmando diante do avolumar-se deles. É bem a cara deles querer ganhar o mundo e não arcar com segredo algum.
Fazem um torvelinho. E dá uma vertigem de corpo que queima e deixa a língua com vontade de passear mundo afora.
Quem é fraco não pode ter desejos. Tem que apascentar os dias num torpor morno e lutar para esquecer, porque os desejos exigem força. Só ganha desejo satisfeito quem tem fôlego de muitas vidas para correr atrás deles porque desejos têm pernas do tamanho do mundo, sempre correm ligeiros.
Quando tinha 20 anos, eu pensava que desejos eram concessões. Achava que o mundo tinha coisas e coisas para dar, só me restando ter a paciência e placidez de um monge para aguardar pelo que havia de ser meu. Quieta, calma, conformada nos meus desejos eu corria os dias em cegueira absurda.
Mas, desejo tanto quer que ensina a gente a viver. Exigentes, pedem satisfação ou cismam em nos atear loucuras que o superego desestimula. Mesmo assim, eu dizia para mim mesma que tudo tem seu tempo. Aprendi a ser lúcida e calma. Calma e lúcida, lúcida e calma. E, assim, ia alternando dias contendo desejos.
Hoje com mãos mais destemidas e olhar menos pensativo ganhei força. Quando desejo eu fecho os olhos e viajo junto deles para onde me querem levar. Afio as garras no tapete da sala, dou de roer um osso qualquer para afinar as presas e, vou atrás deles. Desejos não se dão com calma. Seus jeitos são famintos.
Só os cansados de vida querem aprender a largar mão dos desejos. Eu não! Eu quero vontade posta num prato desenhado em azul para nele me deitar e adocicar inteira em vontade plena.
Depois vem uma lentidão na alma, um sorriso maroto no rosto e um brilho de estrelas nos olhos. A gente sorri à grande e pensa: como é bom ser feliz!
Sempre acreditei nas estrelas, vivas ou em morte. Mas, não lembro que tenham satisfeito os meus desejos. Eles ficaram apenas como desejos confidenciados às estrelas.
Continuo a acreditar em estrelas, mesmo sabendo que não atendem desejos. É bom confiar. Mesmo se em estrelas minúsculas que chamam atenção pela presença constante.
Os desejos são sempre maiores que as estrelas. Eles chegam sorrateiros e ficam espiando a gente de longe. Daí a gente tem um frio que gela a barriga e tonteia a cabeça. Os desejos são fortes e a gente fica fraca, pasmando diante do avolumar-se deles. É bem a cara deles querer ganhar o mundo e não arcar com segredo algum.
Fazem um torvelinho. E dá uma vertigem de corpo que queima e deixa a língua com vontade de passear mundo afora.
Quem é fraco não pode ter desejos. Tem que apascentar os dias num torpor morno e lutar para esquecer, porque os desejos exigem força. Só ganha desejo satisfeito quem tem fôlego de muitas vidas para correr atrás deles porque desejos têm pernas do tamanho do mundo, sempre correm ligeiros.
Quando tinha 20 anos, eu pensava que desejos eram concessões. Achava que o mundo tinha coisas e coisas para dar, só me restando ter a paciência e placidez de um monge para aguardar pelo que havia de ser meu. Quieta, calma, conformada nos meus desejos eu corria os dias em cegueira absurda.
Mas, desejo tanto quer que ensina a gente a viver. Exigentes, pedem satisfação ou cismam em nos atear loucuras que o superego desestimula. Mesmo assim, eu dizia para mim mesma que tudo tem seu tempo. Aprendi a ser lúcida e calma. Calma e lúcida, lúcida e calma. E, assim, ia alternando dias contendo desejos.
Hoje com mãos mais destemidas e olhar menos pensativo ganhei força. Quando desejo eu fecho os olhos e viajo junto deles para onde me querem levar. Afio as garras no tapete da sala, dou de roer um osso qualquer para afinar as presas e, vou atrás deles. Desejos não se dão com calma. Seus jeitos são famintos.
Só os cansados de vida querem aprender a largar mão dos desejos. Eu não! Eu quero vontade posta num prato desenhado em azul para nele me deitar e adocicar inteira em vontade plena.
Depois vem uma lentidão na alma, um sorriso maroto no rosto e um brilho de estrelas nos olhos. A gente sorri à grande e pensa: como é bom ser feliz!
Marlene






